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Ao longo dos tempos, desde que se registra a História, o vinho esteve vinculado à melhora da saúde humana

PARA ENTENDER - RAPIDINHO

Dá para dizer que vinho faz parte da medicina natural?


BRASIL - POR DR. JAIRO MONSON DE SOUZA FILHO - A Medicina natural era a moda no século XIX, como volta a ser hoje. No final século XX ficaram famosas as “curas pela uva”. Surgiram, nesta época, muitos centros que aplicavam este tratamento, na Itália, Alemanha, Rússia, Polônia e Suíça, como o de Vétaux, próximo a Léman, e Dürkhein, na Baviera. Na França, em 1927, em Moissac, capital da Chasselas, foi criado um pavilhão – o “uvarium” – onde se aplicava este
tratamento. Foi, possivelmente, o primeiro Spa do vinho. Seguiram-se a eles outros como o Fort-de-l’eau e Philippe-ville na Algéria, Baden-Baden na Alemanha, Avignon e Colmar na França, e Merano em Roma.

Em 1925, Jahanna Brandt, uma enfermeira sul-africana, publicou “A cura pela uva”, livro que relata a sua experiência pessoal de ter curado um câncer de estômago, depois de falharem os tratamentos conhecidos na época. O também sul-africano Basil Schackleton, já na segunda metade do século XX, escreve “A cura pela uva ou a saúde encontrada”, onde relata a sua cura de cólicas nefréticas com uma dieta à base de uvas.

Até a metade do século XX era frequente o uso dos vinhos medicinais. O vinho servia como veículo para macerados de ervas e pós-vegetais. E certamente, muitas vezes, potencializava os princípios ativos presentes nestes vegetais. Eles eram muitos e tinham diferentes indicações: o vinho de canela para estimular o apetite; o de genciana para a digestão e melhorar a memória; o de absinto como vermífugo e para melhorar a digestão; o de ferro para anemia e como fortificante; o de colchicina para a gota; e de quinino para a febre. O vinho de coca, chamado Mariani, era conhecido como “o rei dos tônicos e estimulantes”. Ele era produzido pelo químico italiano Ângelo Mariani, e foi muito apreciado pelo Papa Leão XIII, Júlio Verne, Émile Zola, Victor Hugo, entre outros. O sucesso deste vinho levou no ano de 1885 o farmacêutico de Atlanta, Estados Unidos, John Styth Pemberton a desenvolver um elixir com coca para combater a neurastenia e a melancolia – era a fórmula original da Coca-Cola®.

Os efeitos cardiovasculares do vinho são os mais estudados. As ações desta bebida sobre o sistema cardiocirculatório são verdadeiramente impressionantes. Elas popularizaram os benefícios do vinho para a saúde e motivaram os cientistas a produzirem dezenas de milhares de estudos científicos nas últimas duas décadas.

O primeiro relato que conheço da proteção do vinho para as doenças do coração é do médico inglês Herbeden, em 1780. Ele conta que a ingesta de vinho aliviava a dor de angina do peito de seus pacientes. Existiu na Irlanda no início do século XIX um médico renomado, chamado dr. Samuel Black. Ele tinha como interesse maior a angina do peito – uma doença isquêmica do coração, que se manifesta por dor no tórax. Em uma publicação de 1819 ele chamou a atenção para o fato da prevalência desta doença ser muito alta na Irlanda e baixa na França, ali do lado. Esse discípulo de Esculápio atribui isso “aos hábitos e estilo de vida dos franceses, coincidindo com o seu clima favorável e o caráter peculiar de suas afeições morais”. Foi a primeira descrição científica que encontrei do que hoje conhecemos como o já citado Paradoxo Francês.

O dr. Francis Edmund Anstie (1833 - 1874), um conceituado médico da época, em 1862 escreveu um livro intitulado “Uses of wines in health and disease”, onde afirmava que o consumo abusivo de bebidas alcoólicas era prejudicial à saúde, mas reconhecia que o consumo leve parecia não ser danoso. Ele até definiu um limite de consumo que julgava seguro: uma e meia onça (o equivalente a cerca de 45 ml de destilado). É a referência mais antiga que encontrei para tentar definir um limite de consumo seguro.

No século XX iniciou-se uma campanha contra o consumo de bebidas alcoólicas. Mas ao mesmo tempo a ciência evoluiu, e as evidências científicas de que o consumo moderado de vinho é benéfico para a saúde são cada vez maiores. No início do século XXI as campanhas, na sua maioria, são contra o consumo abusivo de álcool e são motivadas muito mais por questões religiosas e dogmáticas do que científicas.

Entre as duas Grandes Guerras ressurgiu com força a Medicina tradicional e o desenvolvimento crescente de medicamentos. Nesta época os cientistas médicos se dedicaram muito ao combate das infecções, que eram as doenças mais importantes da época. Foi quando surgiram os primeiros antibióticos e começou a fase de ouro da Farmacologia. Isso contribuiu para o abandono progressivo (mas não completo) da Medicina
natural. Hoje ela está ressurgindo com força, pelas fortes evidências científicas. A prova disto é o número crescente de medicamentos fitoterápicos pesquisados e colocados no mercado pela indústria farmacêutica nos últimos anos.

Em 1951 o dr. e prof. Paul White, cardiologista renomado e médico pessoal do presidente americano Eisenhower, dizia que o vinho era um dos melhores remédios para o coração, depois dos derivados de nitratos. Dr. E. Maury, médico pioneiro da Homeopatia na Europa, escreveu em 1983 o livro “La médicine par le vin”. Nesta obra ele faz uma vasta dissertação sobre as propriedades medicinais do vinho, e considera esta bebida um remédio universal. Diz ele que como tônicos, diuréticos, digestivos, bactericidas, antialérgicos e rejuvenescedores, os vinhos são incontestáveis remédios homeopáticos. Isso é a verdade científica de hoje.

A quantidade de informações científicas e o interesse grande das pessoas sobre as virtudes do vinho para a saúde fizeram com que, nos últimos anos, surgissem muitas obras abordando o tema. Algumas inclusive são best sellers, como The wine diet do dr. Roger Corder, que é professor de terapêutica experimental do Harvey Research Institute de Londres.

Mas o fato recente e mais famoso do mundo sobre a relação do vinho com a saúde é o Paradoxo Francês, e quem primeiro o evocou foi o dr. Jacques-Lucies Richard. Ele constatou que os ingleses e norteamericanos tinham uma mortalidade por doenças coronarianas 3 a 4 vezes maior do que os franceses, que bebem mais vinho com moderação. O prof. dr. Serge Renaud o tornou famoso, quando no dia 17 de novembro de 1991, no programa “Sixty Minutes” da rede de televisão CBS, visto por 50 milhões de norte-americanos, foi entrevistado junto com o dr. Curtis Ellison (americano) sobre doenças do coração.

Como se pode ver, ao longo dos tempos, desde que se registra a História, o vinho esteve vinculado à melhora da saúde humana. Nas diferentes épocas, a evolução do conhecimento nunca quebrou este vínculo. Ao contrário, quanto mais tem evoluído o conhecimento sobre o assunto, mais forte fica a relação de vinho bebido em quantidade moderada com
saúde. O que no início era empírico (acreditava-se que funcionava) hoje é científico (sabe-se por que funciona).


Dr. Jairo Monson de Souza Filho (de Garibaldi) é médico, escritor e autor do melhor livro do mundo na categoria pelo Gourmand Awards, o Vinho é Saúde!


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PUBLICAÇÃO DE 26 DE ABRIL DE 2018


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