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Crédito: pixabay.com

As borbulhas mandam no agito.

PARA ENTENDER - RAPIDINHO

O Desgosto e a Desarmonização


EXTERIOR - POR BRENO RAIGORODSKY - Borbulhas. Elas são as campeãs da festa, não importa em que hemisfério você está, se você fala chinês, russo ou tailandês, se você é cervejeiro ou nem beber você bebe.
Pois desde que o mundo tornou-se aristocrático e desde que as cortes foram perdendo importância até se tornarem penduricalhos decorativos de estados democráticos ou não, as borbulhas mandam no agito.
São tantas as alternativas de potência, gosto e preço que um errinho na escolha pode resultar em desgosto na hora de conciliar prato e bebida, pompa e circunstância.
Sim, são tão parecidas, brilhantes, espumantes, carregam dentro de si a força de um perigoso explosivo, mas as diferenças são capitais no álcool, no açúcar residual, no gosto, na aparência, na longevidade e, finalmente - mas não menos importante - no preço, pois vão de R$30,00 a R$5000,00 e pior – nem sempre as pessoas vão saber valorizar estas diferenças! Atente que mesmo as melhores de Champagne podem ser doces ou secas demais para o seu gosto e com isso, decepcionar. Pois a classificação entre Nature, Brut, Demi-sec e Doux é da própria região que deu origem a tudo isso! Igualmente vinhos menos densos como os Blanc des Blanc, feitos apenas com Chardonnay e seu oposto Blanc desNoir, feitos apenas com PinotNoir.
As melhores e mais almejadas borbulhas são mercadorias de alto valor de compra, porque pertencem àquela rara raça de vinhos longevos, que sai ano, entra ano e ela continua evoluindo no gosto e na capacidade de dar prazer.
O fato de não ser datada é uma faca de dois legumes, pois pode ter perdido o brilho, mesmo se procedência for confiável.
Espumantes de primeira linha ultrapassam a barreira dos 50 anos, ganhando peso na cor, perdendo alguma borbulha, rendendo um tom oxidado na boca, mas ganhando em troca uma complexidade indescritível, um extrema harmonização para comidas mais substanciosas.
A gente estranha no primeiro gole, é verdade, mas uma Bollinger é inesquecível! São bebidas que ficariam bem com qualquer prato, mas tornam-se desperdícios se acompanhadas por pratos menos nobres do que elas.
Mesmo assim, há os que não estão dispostos a afinar o gosto... E aí, o desgosto em dobro é inevitável: a grande decepção virá a cavalo, pois são bebidas para quem quer algo muito diferenciado e consistente. Aliás, o desgosto será triplo, pois quem comprou há de lamentar ter dividido tamanha iguaria com quem não se dispõe apreciar!
É bebida para ir à mesa com toalha de linho, taças de cristal, acompanhada de grandes terrines, excelentes patês, faisão, marreco de cara azulada, lebre no seu próprio sangue e vinho branco, chucrute feito com o magro do toucinho e espumante! Sem falar nos grandes queijos azuis, num queijo VacherinMontD’Or, nas ovas de esturjão conhecidas pelo nome de caviar.
Mas atenção, tem muita frescura em torno dessas bebidas, elas são na média superiores, mas a começar com grandes espumantes franceses fora da região de Reims, a começar pela mais antiga delas, bem mais antiga que a própria champanha, a Blanquette de Limoux, que efervescia a partir da uva local Mauzacem abadias nos arredores da cidade de Carcassone, desde de ao menos 1531, data da seu primeiro registro confirmado, um século, portanto, antes do Don Perignon entrar em cena, um século antes do Louis XIV ser entronado em Reims. Continuando na França, saiba que todos espumantes são regulamentados e alguns produzidos numa região determinada, podem perfeitamente rivalizar com as Champagne, pois rosados ou brancos são obrigatoriamente resultado de colheita manual, menos de 50g de açúcar por litro, 9 meses mínimos de envelhecimento e rendimento máximo de 100 litros por 150kg de uva. Estão nesta categoria, as grandes de Borgonha, da Alsácia, Rhone, Provence eLoire, a maioria fazendo belo uso de suas uvas locais.Fora da França, uma Càdel Bosco de FranciaCorta, uma Murganheira rosada do Douro, uma Cava Juvé&Camps, não ficam nada a dever!
Sem falar dos grandes espumantes de método tradicional brasileiros com Geisse, Angheben, Maximo Boschi, Valduga, Pizzato, Campos de Cima, Salton, Miolo, Vallontano e tantos outros fazem perfeitamente o papel de excelentes bebidas, em boa parte tão boas quanto as champenoises originais.
E mais, há muitos grandes charmat soltos por aí. Charmat, é método para baratear e facilitar a vida do produtor, mas nem por isso tem resultados obrigatoriamente piores.
Tanto que ouve-se comentários descabidos como o do famoso Spurrier, que escorregou na maionese ao avaliar um charmat, dizendo que ele era evoluído demais para um charmat... Ou seja, bom demais, com cor, borbulha e gosto de um vinho superior!? Como que dizendo que não se pode fazer uma coisa tão boa com uma técnica dita inferior.

Se os grandes pratos europeus vão bem com tudo isso, o que dizer de pratos que vão bem com nosso verão, que por acaso cai no fim do ano desde o Natal? O que dizer da moqueca capixaba, sem dendê, portanto, e com pouco leite de côco pede algo mais leve?E o peito de perú, desses da Sadia ou da Perdigão?
Melhor espumantes menos pretensiosos, onde a acidez fala mais alto... Um Prosecco de 11% de álcool no máximo? Quem sabe um charmat brasileiro de uva riesling itálico ou até moscatel, com uma dosagem de açúcar residual em torno dos 15g por litro. São bem mais baratos e te livram de cair nos braços de um Cereser de maçã, que engana quem gosta... Aliás, na França e mesmo no Brasil, faz-se boas Cidras, bem mais secas e pretensiosas do que estas que estão aí apenas para imitar um espumante.
Ou seja, para não atravessar o samba e desarmonizar na avenida, escolha seu espumante com cuidado, pensando no resto todo, desde o prato até o bolso!


Breno Raigorodsky (de São Paulo) é bacharel em filosofia, publicitário, juiz internacional de vinho e winecoach (www.winecoachbr.com)


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PUBLICAÇÃO DE 19 DE DEZEMBRO DE 2017


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