NOTÍCIA


Crédito: Vinho&Cia - Pixabay

Celsus (25 a.C. - 37 d.C.) usava vinhos secos e leves para doenças do estômago, os encorpados para nervosismo e os salgados para icterícia e como laxativos

PARA ENTENDER - RAPIDINHO

Vinho pode ser considerado um medicamento?


BRASIL - POR DR. JAIRO MONSON DE SOUZA FILHO - O vinho é o mais antigo dos medicamentos. Usado com fins medicinais desde os primórdios da humanidade, tem cada vez mais as suas virtudes terapêuticas reconhecidas.

Desde que se fala do homem se fala do vinho. E desde que se fala do vinho ele é relacionado à promoção de saúde. Segundo Patrick McGovern, arqueólogo molecular do Museu de Antropologia e Arqueologia da Universidade da Pensilvânia, “o fermentado de uvas pode ter surgido acidentalmente, mas o seu domínio e a sua persistência ao longo de toda a história se deve às propriedades energéticas e ao interesse eternal do homem em desenvolver medicamentos”.

A civilização Mesopotâmia faz várias alusões ao uso medicinal do vinho na “Farmacopeia Suméria”, possivelmente o livro médico mais antigo a se referir sobre o assunto. Ciro, imperador da Pérsia no séc. VI a.C., fornecia vinho aos seus
soldados como prevenção às infecções e outras doenças, e para manter o espírito altruísta de seus guerreiros. Fato este imitado por imperadores romanos, na época das conquistas.

No Egito Antigo (mais de 2.000 anos a.C.), o vinho era usado
em unguentos para tratar doenças de pele, asma, constipação, epilepsia, indigestão, icterícia e depressão. Nos processos de mumificação era usado como antisséptico para limpar as cavidades abdominais. Misturado com ópio era usado para diminuir dores e tristezas.

Na Índia Antiga (2.500 - 2.000 a.C.) o uso medicinal do vinho
era semelhante ao uso que os egípcios faziam, conforme consta no Rig-Veda e Charaka Samhita. Os livros do Talmude (500 a.C. - 400 d.C.) registram o uso afrodisíaco
e medicinal do vinho. O Talmude é uma das obras mais importantes do judaísmo pós-bíblico. É uma compilação de textos que vão do séc. III a.C. ao fim do séc. V d.C. Ele surgiu da necessidade de complementar o Torá, ou lei escrita, e interpretar os mandamentos de acordo com as realidades da época. Está dividido em duas partes: Mishná e Gemara.

Na Grécia Antiga o uso medicinal do vinho foi amplo. Era usado como energético, calmante, anti-infeccioso e antisséptico nos ferimentos, como relata Homero (séc. IX a.C.) na Ilíada e na Odisseia. Usavam vinho também para temperar e lavar os alimentos, onde a água não era confiável. Se este hábito fosse adotado pelos europeus no final da Idade Média, não teria ocorrido a pandemia da peste bubônica. Os gregos relacionavam o consumo moderado de vinho à serenidade, longevidade e sabedoria.

Hipócrates (460 - 367 a.C.), o Pai da Medicina, foi o primeiro a reconhecer as propriedades diuréticas do vinho branco. Ele também falava da sua ação sobre a digestão e a melhora do apetite, como purgativo, antitérmico e antisséptico. Dizia que não só fortificava, mas alimentava o organismo. Ele recomendava vinho à maioria de seus pacientes, tanto
para aqueles com doenças agudas, como para crônicas. Já há 2.500 anos, ressaltou que essa bebida, muitas vezes indicada como remédio, se usada inadequadamente poderia causar doenças, e registrou muitas notas a respeito, fruto da sua aguçada observação.

Também Sócrates (470 - 399 a.C.), Aristóteles (382 - 322 a.C.) e Platão (428 - 347 a.C.) deixaram registrado o seu reconhecimento às virtudes terapêuticas do vinho.

Asclepíades (124 - 40 a.C.), notável médico grego da sua época, que foi também médico de Homero, baseava os seus tratamentos em três pilares: a restrição dietética, a atividade física e o consumo moderado de vinho.

Celsus (25 a.C. - 37 d.C.) usava vinhos secos e leves para doenças do estômago, os encorpados para nervosismo e os salgados para icterícia e como laxativos.

Plínio, o Ancião (23 - 79 d.C.), naturalista romano do início da era cristã, descreve em seu “Tratado de História Natural” um preparado medicinal à base de uvas, sementes de uva, cacho e outros ingredientes, que indicava para dores em geral, disenteria, verrugas e como cicatrizante.

Cláudio Galeno (131 - 201 d.C), também médico grego, reconhecia e referendava todas as virtudes medicinais do vinho observadas na época. Ele era médico dos gladiadores em Pérgamo. Aí ele observou que os ferimentos tratados com vinho não sofriam putrefação e que nas eviscerações, lavando-se as vísceras com vinho, não ocorria peritonite. Galeno esteve em Roma, onde conquistou fama e respeito como médico e depois retornou para Pérgamo em 166 d.C. Marco Aurélio, imperador romano da época, sofria de um mal que os famosos médicos romanos não conseguiam resolver. Abatido e sem saber mais a quem recorrer em Roma, mandou chamar Cláudio Galeno, no ano de 169 d.C., que faz o diagnóstico de dificuldades digestivas e recomenda-lhe vinho com pimenta, com o que o imperador experimentou impressionante melhora. Galeno é então nomeado médico particular e conselheiro do imperador romano Marco Aurélio. Sua missão era proteger o governante de envenenamentos, o que fazia com as “teriagas”, um preparado de ervas em vinho. Foi quando
escreveu “De Antídotis”, um verdadeiro tratado sobre os vinhos da época e suas propriedades terapêuticas. Nele escreveu: “os vinhos tintos e doces produzem muito sangue, enquanto os brancos e claros produzem um pouco menos, de modo que os primeiros são mais apropriados para alimentar o corpo e os outros para se livrar dos líquidos através da urina”. O que há de curioso com Galeno, é que recomendava uma bebedeira por mês, para manter a boa saúde. Afora isso, grande parte de suas observações encontram respaldo no conhecimento científico de hoje.

Com a queda do Império Romano, os conhecimentos sobre saúde foram esquecidos; a cura e a doença eram atribuídas a Deus. O desenvolvimento da ciência médica nesse período foi pequeno. Mas, por outro lado, a preponderância da religiosidade contribuiu para o desenvolvimento do cultivo de videiras e para a produção de vinhos. O “sangue de Cristo” é indispensável na liturgia católica; onde havia missa, tinha
que ter vinho.

(trecho do livro Vinho é Saúde!, editado pelo Vinho&Cia)


Dr. Jairo Monson de Souza Filho (de Garibaldi) é médico, escritor e autor do melhor livro do mundo na categoria pelo Gourmand Awards, o Vinho é Saúde!


Mais...
ComentarTirar
Dúvida
Seguir
Por
E-Mail
Ver
Mais
Notícias
Ver
Produtos
e Livros

PUBLICAÇÃO DE 8 DE DEZEMBRO DE 2017


Ver mais notícias


Compartilhar

Tags  para entender, rapidinho, jairo monson - pf, brasil, br, brasil


Pesquisar no Vinho&Cia

Seguir o Vinho&Cia nas redes sociais

    

  © ConVisão | Desde 1991