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Crédito: Pixabay

O mundo em quase todas as áreas evoluiu espetacularmente, mas a moral da maioria parece que involuiu

PARA ENTENDER - TEXTÃO

A falta de ética, ou a pilantragem mesmo, na gastronomia e nos vinhos


BRASIL - POR REGIS GEHLEN OLIVEIRA - Já se vão mais de 31 anos meus na vida de trabalho, 25 como empresário, 13 no mundo profissional dos vinhos e da gastronomia, 5 como funcionário de empresa privada e 4 como servidor público em alto escalão. Não sou saudosista, nunca fui, porém a cada dia enxergo mais e mais pessoas se tornando antiéticas, ou podres e pilantras mesmo, para usar palavras mais pesadas. Nesse tempo o mundo em quase todas as áreas evoluiu espetacularmente, mas a moral da maioria parece que involuiu.

No mundo de hoje, não só no Brasil, virou moda colocar toda a culpa nos políticos, pois sempre haverá um Temer, Dilma, Lula, Fernando Henrique, Collor, Sarney, General, etc. para transferir a responsabilidade relativa à própria incompetência ou safadeza. E haja pau neles!

Houve um tempo em que a maioria dos restaurantes não colocava na nota fiscal que te devolvia um troco, quando você pagava com cartão e incluía os 10% de serviço nesse pagamento. Estabelecimentos "meia boca" não incluíam a título de gorjeta 13% ou 15% na conta, sem te destacar. Eles também não pressionavam garçons a dizer que todo o valor é repassado aos funcionários. Eles não cobravam 80 ou 100 reais de rolha de vinho sem te avisar previamente. Eles não faziam cartel para ter um preço de vinho mínimo nas cartas. Eles não faziam construções irregulares, para faturar com mais mesas, ocupando as áreas de terrenos destinadas pelo poder público à infiltração das chuvas, de modo a minimizar as enchentes que afetam a todos. Se eles fizessem uma promoção apoiada por um fornecedor ou divulgador eles cumpriam. Eles não contratavam garçons, sommeliers ou maîtres em condições aviltadas, em razão da suposta situação econômica. Houve um tempo...

Houve um tempo em que a maioria dos garçons trabalhava sem fazer corpo mole longe das vistas do dono. A maioria dos sommeliers oferecia um vinho pela sua consciência, compatível com o cliente e um prato, e não porque a importadora dava um incentivo, um "plus a mais adicional" pela venda de um rótulo que quer vender. Eles não negociavam uma caixa de seis vinhos com mais dois ou três. Havia os vinhos mais baratos nas cartas, e quando não tinha eles não justificavam que tinha vendido muito nos últimos dias e o pedido estava para chegar. Eles trabalhavam, e não viam apenas os direitos, mas também as obrigações pelos direitos. Houve um tempo...

Houve um tempo em que uma importadora de vinho ou uma vinícola não pagava para retirar uma outra da carta. Havia fiscais alfandegários corruptos, mas importadoras e vinícolas não falavam que eram achacadas quando pelo "bem do público" tentavam passar vinho com alíquota de produto incentivado. A maioria das vinícolas e importadoras quando patrocinava e tinha a sua marca divulgada pagava em dia pelo apoio. Havia muitos elos na cadeia de valor ao consumidor, ineficiências, muitos "plus a mais adicionais", mas elas não justificavam os altos preços dos vinhos somente pelos impostos. Houve um tempo...

Houve um tempo em que você fechava um contrato com alguém e se o cara tivesse problema de caixa ele te ligava, todo sem jeito, tentando negociar uma nova condição. Não passava a data do pagamento e você conseguia ver a cara dele. Ele não sumia e não colocava um financeiro mal educado para te atender, dizendo que não tinha recebido o e-mail, ou que sem grana não saberia quando te faria o imenso favor de te pagar pelo compromisso assumido, isso porque, sinceramente, você estaria entre os privilegiados dele. Houve um tempo...

Houve um tempo em que a maioria dos
publishers, jornalistas ou blogueiros tinha opiniões sinceras sobre um vinho ou um restaurante, e não apenas elogios para tentar ser patrocinado ou convidado a eventos ou viagens, ou ficar de bem com os "master chefs" e demais figurinhas circulantes na grande mídia. A maioria da imprensa checava e trabalhava uma notícia que recebia, e não apenas compartilhava ou transcrevia. Ela focava no bom jornalismo, não se escondia como um partido político disfarçado, ou jabazeira, ou agente de merchandising travestido de especialista. Houve um tempo...

Houve um tempo em que o politicamente correto não se escrevia, porque todo mundo sabia. Não havia
compliance para dizer que você não deveria corromper alguém. A hipocrisia era politicamente incorreta, e a discussão sobre o mundo era mais importante do que uma piadinha infeliz ou uma praguejada besta de alguma celebridade. Era mais relevante a discussão sobre os direitos básicos à educação, saúde e transporte do que os direitos de ter num restaurante uma porta de banheiro destinada a cada um dos tipos de sexo, hoje em quantidade ainda não determinada. Houve um tempo...

Houve um tempo em que consumidores devolviam um troco recebido a mais. Eles alertavam quando um prato ou um vinho não era cobrado numa conta por uma falha humana. Os saradões aos 60, que carregavam mais de 100 quilos na academia, não reivindicavam atendimento prioritário na fila de restaurante. Houve um tempo...

Hoje, ainda bem, há uma minoria. Mas... Será mesmo que houve um tempo?


Regis Gehlen Oliveira é editor do Vinho&Cia


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PUBLICAÇÃO DE 7 DE DEZEMBRO DE 2017


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