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Crédito: Divulgação

Chianti é uma DOCG que nasceu antes das outras

O QUE BEBER - QUE VALE A PENA

Não fui à Toscana porque nunca saí de lá


ITÁLIA - POR BRENO RAIGORODSKY - Se eu tivesse ido a um almoço outro dia em São Paulo no restaurante Piselli – almoço para o qual fui convidado – estaria agora escrevendo sobre Chianti. Era um almoço voltado para a mais importante, antiga e interessante DOCG da Itália.

Uma DOCG que nasceu antes das outras, que se tornou exemplo para a maioria delas. Pois a ideia de Denominação de Origem na Itália nasceu da necessidade que os produtores toscanos sentiam, já no inicio do século XX, de proteger aquele que era um dos mais bem-sucedidos produtos da agroindústria incipiente da época.

Para registro, é bom lembrar que a garrafa de Chianti era a única estrangeira a aparecer entre as garrafas regulamentadas na França, onde já se determinava com que tipo de recipiente deveriam ser engarrafados os vinhos das mais diferentes origens regionais. Hoje em dia, aquela garrafa bojuda, embalada por um cesto de vime, está praticamente fora de uso e perdeu o prestígio que manteve por tanto tempo. Os tempos são outros, a vinificação melhorou sobremaneira a grande maioria dos vinhos, inclusive os da Toscana, entre eles os próprios Chianti.

Mas sua fama vinha de um período pós-filoxera, onde o contrabando e a falsificação empanava todo e qualquer prestígio regional. Era fruto de um procedimento cheio de pirotécnicas, que recebeu o nome de Governo Al’Uso Toscano (http://www.fisarmontecarlo.it/che-cose-il-governo-alluso-toscano/), que lembra, em parte, um pequeno Amarone, conduzido por uma mescla de Sangiovese, Canaiolo e Malvasia, adicionado de uma pequena parte de uvas secas por dois meses, que produzem uma segunda fermentação, bem mais longa que a primeira.

O Governo Al’Uso Toscano criou duas pontas: uma apressada, apenas contando com a mistura das três uvas permitidas, com uma fermentação em grandes botes de madeira da Eslovênia; e outra com fermentação secundária a mais, contando com adicional de açúcar vínico da dita adição de pequena parte de uvas já secas, que – com suas leveduras – provocam a segunda fermentação, esta que se estende até a primavera.

O Governo não é obrigatório e hoje nem é tão usado, mas talvez explique como este vinho ganhou estabilidade, ano após ano, sendo sempre considerado um vinho mais confiável do que outros da região, até mesmo de monstros míticos, como o Brunello, que costumava variar muito em qualidade de uma safra para a próxima.

Hoje são centenas de DOCs e dezenas de DOCGs a partir da uva Sangiovese (217 Denominações), cujas mais famosas continuam ser Brunello, Vino Nobile di Montepulciano, Chianti Riserva e, atualmente, Morellino di Scansano, que – apesar de muito recente – já atingiu as outras, se não na fama, na qualidade.

Se eu tivesse ido ao Piselli naquele dia, certamente iria lembrar que quando morava em Roma era convidado pelo tio da minha mulher a incursões regulares de fins-de-semana para além da Úmbria, em direção ao vale que envolve Montalcino e Montepulciano. Uma mini-vertical 1966 e 1997 Chianti Classico foi a primeira degustação comparada de que participei, em 1972.

Lembraria também – pelo hábito de frequentar, décadas depois – de alguns dos encontros que Vincenzo Venitucci promovia regularmente em sua cantina Familia Venitucci para comparar Chianti e outros vinhos da região. Foi lá que descobri um SantAntimo, uma denominação que nasceu em Montalcino para ter um vinho com forte presença de uvas francesas mescladas com Sangiovese, e mesmo assim ficar em paz com o Consorzio que dita os rumos dos vinhos locais.

Lembraria que cheguei a acreditar piamente que a Sangiovese – sangue de Júpiter, em latim – era outra uva que não Morellino, Brunello, Prugnolo Gentile, Sangiovetto, Sangiovese Grosso e Piccolo, todas atualmente desmascaradas com nomes regionais da mesma uva, mas que eram vistas com particularidades suficientes para se saírem como se fossem variedades. Afinal, numa terra como aquela, a cada colina e insolação, a cada vento, mais próximo ou menos da salinidade marinha, há intervenções na plantação e no paladar final.

Ia querer saber, além disso, se houve mais flexibilização da Denominação, visto que aquelas terras se mostraram ainda mais mágicas depois do espanto causado pela qualidade das uvas colhidas em Bolgheri, uvas que nada tinham de italianas, muito menos toscanas.

Foi por lá que o Novo Mundo entrou no Velho e nunca mais o abandonou, pois ainda hoje se propagam uvas de outras regiões do mundo em solos diferentes, seja na Espanha, na própria Itália, em Portugal, na Eslovênia e em tantos outros lugares.

Pena não ter podido ir ao Piselli naquele dia.


Breno Raigorodsky (de São Paulo) é bacharel em filosofia, publicitário, juiz internacional de vinho e winecoach (www.winecoachbr.com)


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PUBLICAÇÃO DE 5 DE DEZEMBRO DE 2017


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Tags  o que beber, que vale a pena, breno raigorodsky, itália, , itália


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